Frei Agostinho de Jesus – séc. XVII. Pioneiro da Arte Sacra no Brasil
Pioneiro da Arte Sacra no Brasil
{"time":1778688725287,"blocks":[{"type":"paragraph","data":{"text":"No Planalto Paulista do século XVII, as relações sociais\nestabelecidas por meio de laços matrimoniais entre tupis e portugueses\nmesclaram-se à sociedade paraguaia formada por espanhóis e guaranis, dando\norigem a uma diversidade cultural que resultou na ideia de sertão: um espaço em\nque a miscigenação e liberdade ignoravam tratados ibéricos ou controles\nmetropolitanos. Pelos rios, trilhas e fronteiras, os sertanistas avançaram pelo\ninterior do continente em busca de riquezas, fundando vilas, mapeando territórios,\nestabelecendo relações comerciais com a América Espanhola e retornando com a\nprata de Potosí. No centro desse processo estava o mosteiro beneditino de\nSantana de Parnaíba (SP) e a arte daquele que é considerado o primeiro grande artista\nnascido no Brasil – o monge Frei Agostinho de Jesus (c. 1600/10–1661). A partir\nde 1643, ao se estabelecer na região, transformou o panorama cultural da\nColônia, marcando um momento significativo nas artes plásticas da América\nPortuguesa. Em Parnaíba, encontrou uma sociedade pioneira, original,\nmiscigenada, na qual criou obras-primas que testemunham o nascimento de uma\ncivilização e a gênese da identidade brasileira."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"A tradição da escultura retabular foi desenvolvida com excelência, desde\no medievo, no mosteiro beneditino de Santa Maria de Alcobaça, fundado em 1153\npor D. Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal. Esse mosteiro cisterciense\ndestacou-se pela produção sacra em pedra, madeira e terracota — técnica esta transplantada\npara a Bahia pelas mãos do ceramista e monge português Frei Agostinho da\nPiedade (c.1580–1661) no início do século 17. Este, por sua vez, ensinou Frei\nAgostinho de Jesus que, ao se mudar para São Paulo, em 1643, passou a atuar\ncomo escultor nas olarias de Santana de Parnaíba. Essa produção foi\nidentificada e documentada pelo historiador e monge beneditino D. Clemente\nMaria da Silva-Nigra (1903–1987) entre as décadas de 1930 e 1940, quando\ntrabalhou para o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Suas pesquisas\nevidenciaram a importância dessa produção na formação da arte luso-brasileira –\nexpressão máxima da cultura mameluca no período das bandeiras. "}},{"type":"paragraph","data":{"text":"As obras criadas por esse grande <i>figulus\nstatuarius</i> (oleiro-escultor) representam uma das mais significativas\nmanifestações de arte seiscentista – anjos de feições mestiças e com olhares amendoados, imagens de virgens e\nsantos beneditinos marcadas por liberdade formal e colorido intenso, tropical,\nsustentados por volutas que evocam nuvens. Adaptando-se ao barro cinzento\npaulista, menos coeso e mais pesado, Frei Agostinho criou bases largas e ocas que\nsustentavam os corpos alongados das figuras. A solução plástica encontrada foi\numa forma cônica, decorada com profusões de cabecinhas de anjos em espirais nas\npeanhas. O artista destacou-se especialmente na representação de Nossa Senhora,\ndedicando parte de sua produção aos temas marianos – traduzindo uma beleza\nfeminina e terrena, em uma tentativa de aproximar a humanidade do divino. As santas\napresentavam cabelos esparsos sobre os ombros contendo vestes em pregas de suave\nmovimentação, filetes e flores ornamentadas com folhas de ouro, dentro de uma\ntransição do maneirismo para o barroco. Essas esculturas foram influenciadas\npelos orientalismos do comércio de luxo indo-português, principalmente inspiradas\nnas imagens de marfins, em um duplo caminho – a estética asiática em\nconfluência com as feições da população indígena americana – uma ponte entre\nGoa-Índia e São Paulo. "}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Missionário das artes, a atividade de Agostinho de Jesus alcançou\nescala continental, influenciando gerações de santeiros e figureiros em barro, da\nBahia a São Paulo, passando por Pernambuco e Rio de Janeiro – deixando como\nlegado a mais antiga escola de imaginária cristã erudita brasileira. Às\nesculturas de veneração comunitária e conventual sucederam-se, no limiar dos\nséculos 19 e 20, as pequenas imagens <i>paulistinhas</i>\nde devoção popular doméstica."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Considerada a primeira grande\nmostra individual de Frei Agostinho de Jesus, esta exposição apresenta ao\npúblico da Fundação Maria Luisa e Oscar Americano um panorama representativo do\nseu legado – suas influências, obras-primas e discípulos –acompanhando os caminhos percorridos\npor esse admirável monge-artista, precursor da imaginária nacional. Em\num contexto colonial marcado por tensões e desigualdades, as populações locais,\nembora subjugadas, fragmentadas e escravizadas, foram capazes de resistir e de\nassimilar elementos diversos, filtrando e ressignificando práticas culturais. Dessa\nsíntese nasceram novas formas de fazer, de se relacionar e de produzir arte,\ntraduzindo, na imensidão dos trópicos, os conflitos que moldaram a cultura\nbrasileira."}}],"version":"2.18.0"}
Rafael Schunk
Curadoria