África: ancestralidade e sincretismos
{"time":1793046026365,"blocks":[{"type":"paragraph","data":{"text":"\nO Brasil abriga em seu solo as\nsementes de uma herança vasta e profunda, germinada a partir do\nprocesso histórico do comércio triangular escravagista e da\ndispersão forçada de povos africanos pelas Américas. Durante mais\nde três séculos, a imensidão dos valores civilizatórios dessas\nsociedades se enraizou e floresceu em nosso território."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"\nA Fundação Maria Luisa e Oscar\nAmericano apresenta a exposição ÁFRICA – ANCESTRALIDADE E\nSINCRETISMOS, que reúne peças de acervos referenciais constituídos\npor obras de diferentes partes do continente africano. A coleção de\nMarco Antônio de Biaggi, inspiração primeira desta mostra, foi\ncuidadosamente formada ao longo de décadas e será exibida pela\nprimeira vez ao público. A exposição conta com máscaras,\nesculturas, bustos e objetos que representam poderes e saberes\nancestrais transmitidos de geração em geração na África e que,\ncontinuamente, foram difundidos em essência e arte por todo o mundo."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"\nOs povos BANTU, originários da\nÁfrica Central – Angola e Congo –, como, entre outros, os\nBAKONGO, que foram cristianizados desde o final do século XV,\norganizaram o denominado afro-catolicismo principalmente no litoral e\nnas regiões do centro-sul brasileiro e trouxeram ainda consigo o\nexímio domínio da metalurgia do ferro e da agricultura.\nConcentrados inicialmente nas lavras de ouro e, mais tarde, nas\nfazendas de café do Sudeste, deixaram como legado a força das\ncongadas e a devoção a Santo Antônio esculpido em nó de pinho."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"\nJá os IORUBANOS da África\nOcidental – herdeiros do REINO DE IFÉ (berço místico), do REINO\nDE OYÓ (centro político-militar) e do exuberante polo artístico de\nbronzes e marfins dos BINI do antigo Reino do Benin (Nigéria) –\ntransplantaram sua rica cosmologia majoritariamente para a Bahia e\nPernambuco. Sua presença moldou de forma irreversível as poéticas\ne os signos visuais das narrativas afro-brasileiras, ecoando nas\nsonoridades, no candomblé, na medicina sagrada das folhas e na\nliturgia dos cortejos."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"\nDezenas de outros povos aqui\nrepresentados, não somente os ASHANTI, importantíssimos pelo\nconhecimento do trabalho no ouro e pelo desenvolvimento das tradições\nde ourives no Brasil colonial, mas também os MACONDE, MANGBETU,\nLUBA, HEMBA e IOMBE, pelo lado central africano, e os BAGA, BAMANA,\nDOGON, FANG, SENUFO, BAULÉ, MUMUYE e MAMBILA, pelo lado ocidental,\nconstituem apenas alguns exemplos."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"\nSob a vigilância e a opressão\ndo monopólio colonial, onde não havia margem para a liberdade de\nculto, forjou-se um poderoso mecanismo de resistência espiritual e\ncultural: o sincretismo afro-brasileiro. Na África, o tributo aos\norixás, às forças da natureza e às deidades organizava-se como um\nmosaico de tradições independentes, variando conforme a nação e o\ngrupo étnico. No Brasil, essas divindades e ritos se reconfiguraram\nnos mesmos espaços físicos, criando entroncamentos de crenças e\nterreiros plurais. Foi nesse cenário de adaptação que, muito antes\nde se sistematizar na multifacetada Umbanda do século XX, a comunhão\ndos santos católicos começou a se fundir ao panteão dos orixás e\ninquices."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"\nAssim, o sagrado ganhou novos\ncontornos, moldando-se em ricas dinâmicas e variações, a depender\nda região do país. Símbolos centrais da fé reconfiguraram-se: o\nCristo transmutou-se na paz e na criação de Oxalá, enquanto a\nVirgem Maria, sob o manto dos Navegantes, fundiu-se à Iemanjá, a\ngrande mãe das águas salgadas. Essa teia de correspondências\nespelhou também as forças da natureza e das batalhas diárias, onde\nSanta Bárbara fez-se a tempestade de Iansã (Oyá) e São Jorge, no\nSudeste, vestiu as armaduras de Ogum – arquétipo guerreiro que,\nnas terras baianas, é frequentemente assumido por Santo Antônio –,\nrevelando a multiplicidade e a força de uma devoção que se\nreinventou e pluralizou para sobreviver."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"\nEssa imensa teia de saberes não\nmoldou apenas o espírito, mas também os sentidos e a estética\nnacional. A liberdade geométrica e a subversão esquemática da arte\nafricana anteciparam vanguardas e enriqueceram o repertório visual\ndas Américas. Suas formas transbordaram do domínio mítico para o\nconcreto e o abstrato, manifestando-se na arquitetura, no folguedo,\nno apogeu do carnaval, nas danças e na fatura dos objetos de fé –\nfontes inesgotáveis de inspiração que atravessaram a modernidade e\nseguem vivas no século XXI."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"\nNesta exposição, a força\npulsante dessa herança ganha corpo, matéria e narrativa. As obras e\npoéticas aqui reunidas dialogam intimamente com esse legado visual e\nespiritual, traduzindo mitologias e signos em arte contemporânea. É\num convite para que o olhar do visitante atravesse essa ponte\nancestral e sinta, na cor, na linha e no volume, o esplendor contínuo\ne a resistência da estética e da alma afro-brasileira."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"\nPor fim, gostaríamos de\nregistrar nossos agradecimentos às coleções parceiras que também\nparticipam gentilmente desta mostra: CIJY – Coleção Ivani e Jorge\nYunes e Coleção César De La Croix, Paris."}}],"version":"2.18.0"}
Rafael Schunk
Curadoria